Vou me desamarrar de tudo o que me prende e não
me faz bem. Desatar-me-ei destes nós que me impedem de falar, de escrever e
criar. Para tanto, começo a retirar o pó deste lugar, o retrato de mim mesma, a
imagem do abandono. Ao longo dos dias, deixei-me cair na escuridão e não me dei
conta de que minhas mãos estavam petrificadas, meus olhos fechados e minha
mente inapta para qualquer função, exceto dormir.
O ócio também cansa, pois é monótono. O círculo
vicioso de girar em si mesmo o tempo todo e não abstrair nenhum efeito. Cansei
de me preocupar com situações banais e busco enfrentar de queixo erguido, ainda
que por dentro eu continue na batalha por vencer o complexo de inferioridade.
Eu crio a ideia, sustento até ela se fortalecer e depois a golpeio, até o seu
desaparecimento. Nunca obtive bons resultados desse modo. Nunca.
Sei que sou fraca, sei que sou comum e que não
tenho nada a oferecer além de umas míseras reclamações. Mas você também passa
por isso. Nos momentos de angústia, a gente encara esses pensamentos com
tamanha naturalidade e nem percebemos o veneno que ingerimos. Você é tão
fraco quanto eu, tão comum e não tem nada a oferecer, mas de quê adianta ficar
se consumindo nesse vácuo total, pensar nas crises existenciais e no que se pode
mudar?
Se a resposta for voltada para o exemplo de
superação que se pode ser ou para a maneira ideal de viver que se consegue ter,
ela é lamentável. Se se referir ao nada, ela é pessimista e não caminha com a
filosofia do Carpe Diem. Se não tiver resposta, é imparcial, e sempre será esse
meio termo. Em suma, nós todos estamos condenados com e por nossas escolhas.
Eu me vi nessas condições e me senti mal por não
conseguir reproduzir em palavras o que me afligia. Os olhares maldosos me
cercavam, os cochichos, os risinhos sarcásticos e as listas de julgamentos fizeram
com que eu, decididamente, caísse. Sim, decididamente. Eu decidi cair, porque o
peso de aparentar fortaleza se duplicou; e eu sabia que eu conseguiria me
levantar outra vez somente por meio do descanso. Então eu saí do campo de
visão, retirei-me do centro, deixei de ser alvo e voltei. Agora eu olho pelas
costas. A questão não é ser fraco ou forte, é saber ser um ou outro na devida ocasião.