Por mais interesse que tenhamos em conhecer a nós mesmos, não sei se não conhecemos melhor tudo aquilo que não somos nós. Providos pela natureza de órgãos destinados à nossa conservação, só os empregamos para receber as impressões estranhas, só buscamos nos voltar para fora e existir fora de nós; muito ocupados em multiplicar as funções de nossos sentidos e em aumentar a extensão exterior de nosso ser, raramente fazemos uso daquele sentido interior que nos reduz a nossas verdadeiras dimensões e nos separa de tudo o que não nos pertence. No entanto, é esse sentido que devemos utilizar se quisermos nos conhecer, é o único pelo qual podemos nos julgar. Mas como dar a esse sentido sua atividade e toda a sua extensão? Como separar nossa alma, na qual ele reside, de todas as ilusões do nosso espírito? Perdemos o hábito de empregá-la, ela ficou sem exercício no meio do tumulto de nossas sensações corporais, ficou ressequida ao fogo de nossas paixões; o coração, o espírito, os sentidos, tudo trabalhou contra ela. -- Buffon, Hist. Nat., t. 4, p. 151, "Da natureza do homem". -- citado por Jean-Jacques Rousseau.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Lembrete
Estava na hora de sair desta maravilhosa zona de conforto cedida pelas férias. Tantas promessas e faltas. O livro à espera de ser folheado e minhas mãos fugindo do simples encargo de explorá-lo. A respiração funda, fingindo um alívio, os olhos inquietos e a mente a repetir: leia, leia, leia...
-- Apesar da distância, por meio da foto, o brilho nos olhos me contagiou, bem como seu entusiasmo por lutar pelas causas ditas "perdidas", um espírito alimentado pela vontade de ajudar. O rapaz já se torna um vitorioso somente com a persistência e garra. Mais que um passeio na praia, um ato a favor dos banhistas, a coleta dos lixos; muito além de uma demonstração pública de afeto para com os animais, era o registro do clamor pelo direito deles. Dono do sorriso que sugere ser fácil a caminhada da militância, ele possui não somente um rosto bonito, como também uma mente brilhante. Seu objetivo é pisar nos preconceitos e resgatar valores que estão se perdendo, tal como o respeito às diferenças; ter o reconhecimento de seu trabalho e a continuidade dele, o resultado. --
Após a descoberta, sem querer, idiotizo qualquer comportamento que esteja alheio ao desse rapaz. Piadas parecem não ter mais graça enquanto penso nas pessoas que estão viajando pelo país ou transitando pela cidade, lutando em prol das causas dos humanos e dos animais. Devido a incontáveis motivos ainda me é difícil lutar, porque estou sob a responsabilidade dos pais. Considerando que tenho alguns limites, ler é quase a minha única opção e o mínimo que posso fazer quando a palavra "mudança" me significa mais ao lado do futuro. Mudança -- que comece agora.
Após a descoberta, sem querer, idiotizo qualquer comportamento que esteja alheio ao desse rapaz. Piadas parecem não ter mais graça enquanto penso nas pessoas que estão viajando pelo país ou transitando pela cidade, lutando em prol das causas dos humanos e dos animais. Devido a incontáveis motivos ainda me é difícil lutar, porque estou sob a responsabilidade dos pais. Considerando que tenho alguns limites, ler é quase a minha única opção e o mínimo que posso fazer quando a palavra "mudança" me significa mais ao lado do futuro. Mudança -- que comece agora.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Detença
Ainda que eu me desafie
A lançar pedras pro alto,
Elas não caem em mim
Elas caem no asfalto.
Em um rápido lance
Você me nota, mudo.
Palavras enforcadas,
Meu silêncio, meu escudo.
Eu me fecho, eu me escondo.
Isso não é sofrimento,
Mas maneira de dizer
"Estou te dando um tempo".
O relógio se zanga:
Que papo monólogo!
Tique - dobra-se a culpa;
Taque - e sou psicólogo?
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Sinal
Quando a gente pensa que está para baixo
e que mais nada pode melhorar, outro dia nasce e prova o contrário,
cabe a nós vermos o sinal. Meus primeiros dias de dois mil e treze não
foram os melhores. A começar já pelo final do ano passado, na ceia de
Natal, relatei aqui a insatisfação em perceber a falsidade escancarada
por toda parte. Cada aperto de mão ou frase bem feita era motivo para
iludir os menos rebelados com essa procura superficial de agradar as
pessoas. Mas é passado triste e não me importo em enterrá-lo.
Depois,
no réveillon, o clima parece ter melhorado, as energias fluíam
positivamente. A reunião de entes queridos me dá uma sensação de
conforto. Vê-los sorrindo sara as minhas feridas psicológicas, sejam
elas em decorrência do que realmente vivi ou do que construí com minha
imaginação fértil. Chamo-as de feridas porque possuo uma leve obsessão por acentuar o lado negativo das situações e me machuco propositadamente,
ciente de que reclamações não serão poupadas, ainda que em silêncio.
Meu olhar entrega o meu estado de espírito, mas graças à oportunidade de
presenciar a comemoração da passagem de ano com quem eu amo, esse olhar
é substituído pelas gargalhadas sinceras.
Com
as mágoas deixadas no esquecimento, fui a um tributo da banda Red Hot
Chili Peppers que aconteceu no dia quatro de Janeiro na companhia da
minha melhor amiga. Antes, porém, eu a chamei para passar em frente a um
barzinho ao lado da universidade a fim de ver um conhecido meu do
Facebook, aniversariante daquela data e que havia me convidado. A simples perambulada em frente ao bar era resultado da falta de
coragem em parabenizá-lo, pois as nossas conversas se limitavam à rede
social e, apesar desta ocasião ser propícia, relutei em
encontrá-lo. Só resgatei a autoconfiança após o chamado para ir ao tal
tributo que, a priori, era o meu objetivo. Atravessei o corredor do
pequeno bar e ele estava lá, recebendo abraços e beijos dos/as
conhecidos/as. Num piscar de olhos, por acaso,
vi-me diante daquele rapaz alto, que tanto eu admiro pelas frases
inteligentes que ele compartilha em seu perfil.
Seus olhos encontraram os meus, que perdidos no vácuo um segundo depois, decidiram contemplar novamente aqueles olhos saudosos. Abracei-o ao mesmo tempo em que proferia os "parabéns, muitos anos
de vida". Por curiosidade questionei-o se tinha lembrança de mim e em
bom tom ele disse meu nome completo. Tal qual foi o meu susto, meu
embaraço, meu rosto vermelho e minha emoção. Saí alegre feito uma
criança.
Cheguei ao local onde ocorreria o tributo. Um lugar com poucas luzes e muita gente. A banda se apresentava e por estarmos próximas do palco, minha atenção foi atraída para o baixista. Afinal a banda Red Hot Chili Peppers é composta pelo segundo melhor baixista eleito pelo site da Rolling Stone: Michael Peter Balzary, mais conhecido pelo seu nome artístico Flea. Desse modo, meus critérios em observá-lo não eram inválidos, mesmo ouvindo de um baterista que o baterista da banda tinha talento. Mesmo me lembrando de já ter admitido a um número considerável de pessoas que a guitarra é a alma da banda. Em relação ao vocalista, ele colava descaradamente nas letras das músicas, não sei se por tensão, insegurança, despreparo ou qualquer motivo similar a esses, e eu não consegui tirar um conceito objetivo dele.
O show não havia acabado ainda, mas eu combinara de sair às duas da manhã. Saí meio desanimada por não ter autonomia de permanecer mais tempo, pois T.N.T. acabava de tocar soando como despedida. No caminho, meu irmão a conduzir o carro e minha mãe quieta acalmaram nossos nervos, até pude ouvir o zumbido pós-festa e sentir o cansaço tomar conta de mim. Minha amiga posou na minha casa e enquanto não nos rendíamos ao universo onírico, conversávamos a respeito de tudo: do cara que lembrou meu nome, das pessoas que vimos e conhecemos no show e do clima estranho dentro do carro. Desliguei as luzes e dormimos, combinadas de acordar juntas às oito horas.
No outro dia, descobri que um amigo meu se acidentara de carro e que estava internado na UTI correndo risco de vida. Chorei, implorei, refleti sobre a vida e sobre a morte e regressei às missas e novenas. Há uma semana que minha fé se reergueu e devo isso ao meu amigo, ao sinal que recebi. A notícia boa é que ele está se recuperando, já passou por três cirurgias e responde aos estímulos com rapidez. Seu estado ainda é considerado grave, mas a torcida para que ele melhore é grande. Por isso e por tantas outras coisas é que não vejo razão em desperdiçar a vida em manter o mau-humor. Efemiridade é o seu forte e nunca sabemos quando essa linha acaba.
domingo, 6 de janeiro de 2013
Tu Tens um Medo
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo…
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos…
Enganados…
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor…
… E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.
-- Cecília Meireles.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo…
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos…
Enganados…
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor…
… E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.
-- Cecília Meireles.
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
Realce
Deixando-me levar por esses depoimentos que agradecem o ano que passou, eu começo o meu último dia do ano a relembrar as principais emoções que vivi. Janeiro: é o mês que dá continuidade às tão esperadas férias da Universidade, um verdadeiro descanso para quem se desgastou em provas, trabalhos. Em suma, nada além de ficar em casa e fazer os corriqueiros downloads de músicas, filmes, e foi justamente nesta época em que o FBI fechou o maior site de armazenagem de arquivos: Megaupload. Um desastre imensurável! Mas passou e, com o correr dos dias, encontrei outros sites com uma qualificação próxima.
Ainda abalada pela notícia e pelas tentativas vãs de baixar algum arquivo daquele endereço indisponível, no início de Fevereiro, fui à praia. Os pés na areia, os cabelos rebeldes pelas lufadas do vento ao som das ondas do mar. Uma experiência quase indescritível, pois, ao mesmo tempo em que relaxa, empolga. Os três dias de estada na casa de madeira subtraíram as preocupações que invadem a mente de pessoas ocupadas com estudo, trabalho e afazeres domésticos. Um tratamento psicológico que pode custar caro, mas tão ou mais eficaz que agendar consultas.
Com os nervos acalmados, senti-me pronta para iniciar as aulas. Sabia que a maratona me aguardava repleta de novidades, desde estágios até diversas leituras; e Março era o mês que apresentaria a maioria dessas surpresas. Uma delas, inclusive, apontava para uma viagem a Florianópolis com a finalidade de expor meu trabalho do projeto de extensão. A adrenalina tomou conta de mim aos poucos e eu só me dei conta muito tempo depois. Neste mesmo mês, o Centro Acadêmico de Letras fez sua aparição oficial na Uepg e eu gravei um vídeo em homenagem a todos/as os/as estudantes do curso.
Academicamente falando, no mês de Abril, as surpresas não paravam: compareci à escola onde as observações seriam feitas e conheci a turma da regência. Quanto às minhas preferências musicais, eu passava por uma transição radical: de Madonna a AC/DC. Se eu me considerava uma ouvinte obsessiva e assídua em relação à cantora, à banda eu duplicara. Com outro site de downloads na barra de favoritos, baixei os álbuns Highway to Hell e Back in Black na medida em que lia a biografia dos componentes da banda. A paixão por Bon Scott não foi instantânea, ainda que eu já o preferisse em comparação com Brian Johnson. Reconheço o talento dos dois, mas a performance do cantor escocês acabou chamando mais a minha atenção: suas caras e bocas e sua camiseta de Superman.
Foi nesse clima de mudança de gênero musical que viajei a Florianópolis na companhia de uma colega da sala, em Maio. Sob a luz do luar, ao lado de duas colegas e da minha orientadora, recebi uma mensagem de texto via celular do rapaz que eu nutria certo encanto. Meu coração pulsava descontroladamente e não pude disfarçar a emoção a tal ponto que compartilhei a notícia com as demais. Eu já o conhecia há algum tempo e a oportunidade de conversarmos era quase nula, senão pelo celular. O estado de Santa Catarina nunca mais soou igualmente depois desse ocorrido e o sentimento que nascia durante as horas que trocamos as mensagens me perseguiria depois. Afinal, por trás das letras das canções Jailbreak, Dirty Deeds Done Dirt Cheap ou Touch too Much estaria a expressão daquele rapaz e eu as associaria a ele num ato involuntário para alimentar os meus devaneios.
Em Junho o celular cessaria os alertas das mensagens que eu tanto adorava ver e só me conformei por já ter encontrado o rapaz pessoalmente. Entretanto, eu deixava de carregar um peso nas costas, pois as regências obrigatórias haviam sido cumpridas. Cinco noites preparando os materiais para as aulas que contavam com a participação dos/as alunos/as. Se eu pudesse me basear somente nesse primeiro semestre, como professora, a minha carreira profissional visava ao que se chama de bem-sucedida, não pelos elogios ou pela atmosfera contagiante da sala, mas pelo resultado que obtive na autoavaliação.
Como os deveres aparentemente estavam mais leves, Julho foi o mês dos eventos. Num deles, duas amigas e eu combinamos de dormir juntas após o show com o objetivo de dar risada, falar besteira à vontade, pois os donos da casa se ausentariam. Pés cansados e maquiagens borradas tornaram-se registros. Sobre a cama havia um pacote de bolachas wafer e na mão de cada uma das três que estavam sentadas, um copo de achocolatado. Enquanto devorávamos as guloseimas, passamos o resto da madrugada a contar as anedotas de cada uma, sob diferentes pontos de vista e vimos o sol nascer. Era hora de dormir.
A culpa só não adquiria uma postura negativa para mim porque eu estava frequentando a academia. Eu sabia que naquela noite o chocolate aumentaria a chance de engordar alguns quilogramas e acentuaria o meu sedentarismo, porém, impus a mim mesma que meia hora de esteira atenuava o suposto delito contra a saúde. Em Agosto, esse jogo de perder caloria foi posto em prática e, além de demarcar algumas curvas, eu ampliei meu círculo de amizades. Conheci pessoas extraordinárias, portadoras de um senso de humor inabalável e de conteúdo digno de ser imitado.
Essas amizades continuaram com a mesma intensidade durante os meses de Setembro e Outubro. A interrupção das conversas se deu porque eu fui à praia novamente e parei de ir à academia. Contudo, foi nesse período de tempo que me inseri num Movimento Estudantil. O Diretório Central dos Estudantes da Uepg estava em época de eleição e a chapa 2 - Movimentando Esse Trem - me convidou para ser colaboradora. Presenciei reuniões em que os debates emanavam a palavra luta sem ela ser proferida e acabei sendo influenciada. Vi-me diante de gente considerada importante naquele espaço e confiei na capacidade do grupo que eu apoiava. A votação feita em Novembro teve como apuração a vitória da chapa 2 e meu orgulho pela militância de todos/as era imenso.
Em comemoração, o Movimentando Esse Trem organizou "A Outra Festa!" em Dezembro, a segunda festa desse grupo no DCE, e colaborei com a programação ao convidar uma banda de pop rock da qual um amigo faz parte. Passada a festa, foi a vez do meu aniversário, uma data que possui o caráter desastroso por carregar a temerosa farda da responsabilidade. Tirei algumas fotos para protagonizar casos capciosos, gerando alguns comentários... Comemorei o Natal transformando o cenário do meu quarto, comprei umas revistas com partituras para desenferrujar meus dedos no teclado que há anos não toco... Assim fecho o ano letivo e o ano comercial. Não espero nada de mais de 2013 desde que ele me estimule a escrever e realçar seus pontos positivos assim como eu explorei de 2012.
Ainda abalada pela notícia e pelas tentativas vãs de baixar algum arquivo daquele endereço indisponível, no início de Fevereiro, fui à praia. Os pés na areia, os cabelos rebeldes pelas lufadas do vento ao som das ondas do mar. Uma experiência quase indescritível, pois, ao mesmo tempo em que relaxa, empolga. Os três dias de estada na casa de madeira subtraíram as preocupações que invadem a mente de pessoas ocupadas com estudo, trabalho e afazeres domésticos. Um tratamento psicológico que pode custar caro, mas tão ou mais eficaz que agendar consultas.
Com os nervos acalmados, senti-me pronta para iniciar as aulas. Sabia que a maratona me aguardava repleta de novidades, desde estágios até diversas leituras; e Março era o mês que apresentaria a maioria dessas surpresas. Uma delas, inclusive, apontava para uma viagem a Florianópolis com a finalidade de expor meu trabalho do projeto de extensão. A adrenalina tomou conta de mim aos poucos e eu só me dei conta muito tempo depois. Neste mesmo mês, o Centro Acadêmico de Letras fez sua aparição oficial na Uepg e eu gravei um vídeo em homenagem a todos/as os/as estudantes do curso.
Academicamente falando, no mês de Abril, as surpresas não paravam: compareci à escola onde as observações seriam feitas e conheci a turma da regência. Quanto às minhas preferências musicais, eu passava por uma transição radical: de Madonna a AC/DC. Se eu me considerava uma ouvinte obsessiva e assídua em relação à cantora, à banda eu duplicara. Com outro site de downloads na barra de favoritos, baixei os álbuns Highway to Hell e Back in Black na medida em que lia a biografia dos componentes da banda. A paixão por Bon Scott não foi instantânea, ainda que eu já o preferisse em comparação com Brian Johnson. Reconheço o talento dos dois, mas a performance do cantor escocês acabou chamando mais a minha atenção: suas caras e bocas e sua camiseta de Superman.
Foi nesse clima de mudança de gênero musical que viajei a Florianópolis na companhia de uma colega da sala, em Maio. Sob a luz do luar, ao lado de duas colegas e da minha orientadora, recebi uma mensagem de texto via celular do rapaz que eu nutria certo encanto. Meu coração pulsava descontroladamente e não pude disfarçar a emoção a tal ponto que compartilhei a notícia com as demais. Eu já o conhecia há algum tempo e a oportunidade de conversarmos era quase nula, senão pelo celular. O estado de Santa Catarina nunca mais soou igualmente depois desse ocorrido e o sentimento que nascia durante as horas que trocamos as mensagens me perseguiria depois. Afinal, por trás das letras das canções Jailbreak, Dirty Deeds Done Dirt Cheap ou Touch too Much estaria a expressão daquele rapaz e eu as associaria a ele num ato involuntário para alimentar os meus devaneios.
Em Junho o celular cessaria os alertas das mensagens que eu tanto adorava ver e só me conformei por já ter encontrado o rapaz pessoalmente. Entretanto, eu deixava de carregar um peso nas costas, pois as regências obrigatórias haviam sido cumpridas. Cinco noites preparando os materiais para as aulas que contavam com a participação dos/as alunos/as. Se eu pudesse me basear somente nesse primeiro semestre, como professora, a minha carreira profissional visava ao que se chama de bem-sucedida, não pelos elogios ou pela atmosfera contagiante da sala, mas pelo resultado que obtive na autoavaliação.
Como os deveres aparentemente estavam mais leves, Julho foi o mês dos eventos. Num deles, duas amigas e eu combinamos de dormir juntas após o show com o objetivo de dar risada, falar besteira à vontade, pois os donos da casa se ausentariam. Pés cansados e maquiagens borradas tornaram-se registros. Sobre a cama havia um pacote de bolachas wafer e na mão de cada uma das três que estavam sentadas, um copo de achocolatado. Enquanto devorávamos as guloseimas, passamos o resto da madrugada a contar as anedotas de cada uma, sob diferentes pontos de vista e vimos o sol nascer. Era hora de dormir.
A culpa só não adquiria uma postura negativa para mim porque eu estava frequentando a academia. Eu sabia que naquela noite o chocolate aumentaria a chance de engordar alguns quilogramas e acentuaria o meu sedentarismo, porém, impus a mim mesma que meia hora de esteira atenuava o suposto delito contra a saúde. Em Agosto, esse jogo de perder caloria foi posto em prática e, além de demarcar algumas curvas, eu ampliei meu círculo de amizades. Conheci pessoas extraordinárias, portadoras de um senso de humor inabalável e de conteúdo digno de ser imitado.
Essas amizades continuaram com a mesma intensidade durante os meses de Setembro e Outubro. A interrupção das conversas se deu porque eu fui à praia novamente e parei de ir à academia. Contudo, foi nesse período de tempo que me inseri num Movimento Estudantil. O Diretório Central dos Estudantes da Uepg estava em época de eleição e a chapa 2 - Movimentando Esse Trem - me convidou para ser colaboradora. Presenciei reuniões em que os debates emanavam a palavra luta sem ela ser proferida e acabei sendo influenciada. Vi-me diante de gente considerada importante naquele espaço e confiei na capacidade do grupo que eu apoiava. A votação feita em Novembro teve como apuração a vitória da chapa 2 e meu orgulho pela militância de todos/as era imenso.
Em comemoração, o Movimentando Esse Trem organizou "A Outra Festa!" em Dezembro, a segunda festa desse grupo no DCE, e colaborei com a programação ao convidar uma banda de pop rock da qual um amigo faz parte. Passada a festa, foi a vez do meu aniversário, uma data que possui o caráter desastroso por carregar a temerosa farda da responsabilidade. Tirei algumas fotos para protagonizar casos capciosos, gerando alguns comentários... Comemorei o Natal transformando o cenário do meu quarto, comprei umas revistas com partituras para desenferrujar meus dedos no teclado que há anos não toco... Assim fecho o ano letivo e o ano comercial. Não espero nada de mais de 2013 desde que ele me estimule a escrever e realçar seus pontos positivos assim como eu explorei de 2012.
Sonho
”Quando eu era criança tive um sonho – Eu queria ter a minha própria bicicleta. Quando ganhei uma bike eu devo ter sido o garoto mais feliz de Liverpool, talvez do mundo. Eu vivia por ela. A maioria das crianças largavam suas bicicletas no quintal durante a noite. Não eu. Eu insistia em guardar dentro de casa e na primeira noite eu ainda mantinha na minha cama.”
John Lennon
Assinar:
Postagens (Atom)