domingo, 29 de setembro de 2013

Campo de visão

Vou me desamarrar de tudo o que me prende e não me faz bem. Desatar-me-ei destes nós que me impedem de falar, de escrever e criar. Para tanto, começo a retirar o pó deste lugar, o retrato de mim mesma, a imagem do abandono. Ao longo dos dias, deixei-me cair na escuridão e não me dei conta de que minhas mãos estavam petrificadas, meus olhos fechados e minha mente inapta para qualquer função, exceto dormir.
O ócio também cansa, pois é monótono. O círculo vicioso de girar em si mesmo o tempo todo e não abstrair nenhum efeito. Cansei de me preocupar com situações banais e busco enfrentar de queixo erguido, ainda que por dentro eu continue na batalha por vencer o complexo de inferioridade. Eu crio a ideia, sustento até ela se fortalecer e depois a golpeio, até o seu desaparecimento. Nunca obtive bons resultados desse modo. Nunca. 
Sei que sou fraca, sei que sou comum e que não tenho nada a oferecer além de umas míseras reclamações. Mas você também passa por isso. Nos momentos de angústia, a gente encara esses pensamentos com tamanha naturalidade e nem percebemos o veneno que ingerimos. Você é tão fraco quanto eu, tão comum e não tem nada a oferecer, mas de quê adianta ficar se consumindo nesse vácuo total, pensar nas crises existenciais e no que se pode mudar?
Se a resposta for voltada para o exemplo de superação que se pode ser ou para a maneira ideal de viver que se consegue ter, ela é lamentável. Se se referir ao nada, ela é pessimista e não caminha com a filosofia do Carpe Diem. Se não tiver resposta, é imparcial, e sempre será esse meio termo. Em suma, nós todos estamos condenados com e por nossas escolhas.
Eu me vi nessas condições e me senti mal por não conseguir reproduzir em palavras o que me afligia. Os olhares maldosos me cercavam, os cochichos, os risinhos sarcásticos e as listas de julgamentos fizeram com que eu, decididamente, caísse. Sim, decididamente. Eu decidi cair, porque o peso de aparentar fortaleza se duplicou; e eu sabia que eu conseguiria me levantar outra vez somente por meio do descanso. Então eu saí do campo de visão, retirei-me do centro, deixei de ser alvo e voltei. Agora eu olho pelas costas. A questão não é ser fraco ou forte, é saber ser um ou outro na devida ocasião.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Exist-ir

É estranho, mas ultimamente sinto que desencadeei uma série de sentimentos em mim. Notei que estou absurdamente mais chorona, ciumenta, reflexiva, rude, triste, melancólica, temperamental e por aí vai. Pode ser devido ao tempo seco, ao céu nublado, ao quarto frio. Pode ser o fim de mês. Será eu uma pessoa determinista? Pode até ser a falta de algo que nunca tive. Sei lá, estou meio perdida em mim mesma, às vezes quase não me reconheço. O espelho reflete a mesma imagem de antes, mas aquela expressão pesada que eu vejo certamente está além do que se considera um mero reflexo. 
Esse novo comportamento afeta até mesmo os lugares em que me tento acomodar. Eles devem ser silenciosos, com pouco ou nenhum sinal de vida e quentes. Hoje à tarde eu encontrei uma sala vazia na universidade, sentei-me à mesa, abri meu notebook e comecei a ler. Percebi que os sons do lado de fora estavam aguçados não porque eles eram realmente intensos, mas porque eu estava num absoluto vácuo. Eu podia ouvir as batidas de meu coração.
Não é exílio, nem depressão, nem tristeza, é só a influência de "Bartleby - o escriturário" e de "Os amigos dos amigos", textos existencialista e realista, respectivamente. "Eu prefiro não fazer" em contraposição ao "sou culpada pelo que fiz, fui uma tola". Decididamente, eu mergulho nas minhas próprias criações imaginárias, as quais são atravessadas por essas obras literárias. Quando estou me afogando, ao ponto de não me ser possível ser resgatada de mim mesma, eis que me aparece "A paixão segundo G.H." e caio no que costumamos chamar de realidade.
Tão impotente quanto a protagonista, estou eu aqui tentando expor em códigos o que não se é compreensível. Embora eu esteja, sim, vivendo a contradição do que é ser humana e carrego no meu olhar as convenções morais, éticas e culturais. As situações conspiram para isso, desde leituras, discussões, pessoas, conversas, até o clima e a ausência do calor. Eu me preocupo em vão, porque até esse sentimento que me corrói está fadado ao nada. Adquiri uma visão niilista da vida, ao passo que não consigo me exaurir da carga que é o existir. O que é viver senão assumir um papel, decorar as falas, atuar e abandonar o palco sem vontade própria? Bastar-me-ia ser alguém da plateia.

domingo, 25 de agosto de 2013

Narcisismo

Sempre dissera que não amaria ninguém, exceto a si mesma. Incrédula, sua mãe lhe advertia em ser necessário doar-se a outro, pois o ser humano é provido de emoção, mas a moça não lhe dava ouvidos. As sobrancelhas arqueadas, os olhos em meditação e a boca avermelhada naquela pele macia faziam enlouquecer. Tanto que enlouquecera a ela própria por nutrir o ego.
Voltando da universidade, em um dia qualquer, embarcara no ônibus, como sempre fizera. Ao entrar, os olhos da moça foram atraídos na direção do novo cobrador. Um rapaz de cabelo castanho e olhos argutos. Olhos que não a fitaram como esperado. Os passageiros se sentiam incomodados sempre que a avistavam e aquele rapaz nem havia se movido.
Ferida por dentro, não descansaria até descobrir os horários do ônibus em que o tal cobrador estava. Seu sangue pulsava mais forte nas mãos, pelo frio e pela raiva. Sua maior denúncia era a expressão, afinal nunca lhe haviam desdenhado desse modo. Arrancou informações de antigos pretendentes com discrição. Nome, sobrenome, data de nascimento e endereço bastaram para saciá-la e partir para a conquista.
Inúmeras vezes os dois se encontravam, dentro e fora do ônibus. Na presença um do outro, via-se que o cobrador achava-a bonita, pois nascia nele um leve sorriso, enquanto que ela tremia descontroladamente. O queixo e as pernas estavam sob o efeito do ato involuntário e como dominá-los se, àquela altura, já haviam sucumbido aos seus próprios estímulos? O medo de uma conversa não planejada amedrontava-a, mas eram só fantasias; o rapaz não vinha em sua direção.
Motivada pela angústia e impaciência, inquiriu a um amigo em comum do cobrador que o informasse do seu interesse e que pedia pelo número do celular. O encontro fora marcado. Sem demora, ele se aproximou. Após um longo tempo de conversa ela percebera que sequer havia sido estampado o sorriso torto que tanto ela o vira lançar no ônibus.
Chegou a casa e se isolou no quarto, estava decepcionada e triunfante. Ela estava apaixonada! A lembrança do toque dos lábios perturbava-a: falava sozinha, murmurava frases ininteligíveis. Um "eu te amo" talvez. Preocupada, sua mãe inquietara-se no cômodo ao lado, sabia que aquele quarto seria o primeiro confidente, mas as paredes insistiam em deixar escapar alguns assovios e risinhos. De súbito, jogando-se aos braços da curiosidade, abrir-se-ia a porta onde estava sua filha. Desistiu logo de dar aviso de sua presença, pois lá estava a moça, tão linda, a contemplar-se no espelho. Nada havia mudado.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Externo

Ao pensar que estamos em uma época fria, com muito vento e sujeita à neve, eu me lembrei do verão e da sensação térmica que ele carrega. É mais agradável dormir em uma noite fresca, com roupas leves do que virar um bolo de cobertores, pois o amanhecer parece ser natural, sem peso ou culpa em deixar o travesseiro sozinho. O calor da cidade de Ponta Grossa está totalmente dentro dos padrões que meu sistema imunológico se adapta.
Por outro lado, a estação avessa faz com que eu tenha fortes dores de ouvido, pele ressecada, preguiça, sono e pés gelados. Estes últimos só reafirmam as minhas reclamações acerca do clima quando se mostram desconfortáveis por se assemelharem às pedras de gelo, com a exceção de permanecerem congelados. Ainda não tive a infelicidade de chegar à situação de resfriado ou gripe neste ano, mesmo assim, não gosto do frio e nem do falso atributo de elegância que ele traz.
Depois de refletir sobre o impacto que as estações têm em mim e no meu humor, lembrei-me dos insetos que invadem a casa na época mais quente. As asas que se despregam de seus corpos ficam caídas por toda parte e dificultam a limpeza rápida da casa. Embora seja um ponto positivo no inverno, não consegui me esquecer daqueles pequenos besouros coloridos; das formigas carregando um pedaço de folha; e até mesmo desses insetos voadores que deixam um sinal de sua presença. Eles desaparecem no inverno e acentuam a paisagem cinzenta. A alegria consiste em seu retorno, quando eles ressuscitam e conseguem despertar em mim o sentimento de liberdade enquanto voam. É como se o sufocamento do inverno passasse no instante em que vejo algum deles parado na cortina do meu quarto; ou vários deles.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Deserto

Hoje o meu raciocínio se mostrou compulsivo por pensar e cheguei à conclusão de que não adianta eu fazer tudo aquilo que me convém, pois se tenho a predisposição para ser grossa com as pessoas, nada vai me impedir. O meu jeito faz com que as pessoas se afastem de mim e em um ato quase involuntário, eu crio um muro maciço. Para ajudar, atraio pessoas sensíveis emocionalmente. Elas se consideram frágeis, temperamentais ou dignas do meu apreço e tentam me persuadir com uma expressão de desamparo. 
Pobres criaturas! Mal sabem elas que esses atos não me atingem e, por ora, conseguem ter efeito contrário. Quando eu as imagino fracas, sinto-me forte e no direito de elas verem o que é ser fraco de verdade. Fraca sou eu que busco encontrar sentido nessas peças teatrais do cotidiano. Fraca sou eu que também me utilizo dessas ceninhas baratas, porque um dia acreditei no amor e, mesmo desenganada, ainda quero encontrá-lo.
O amor ao qual me refiro não é o amor desinteressado e sem limites, este eu tenho pelos meus pais e sei que eles têm por mim também. O amor ao qual eu me refiro não vai além do qual eu já possuo, embora traga alguma satisfação: seja para o ego ou para o lado emocional. Talvez o problema, se é que se pode chamar de problema, esteja em mim. Em pouco tempo de conversa, eu consigo traçar os principais defeitos da pessoa, seus gestos ridículos e sua máscara.
Ando criteriosa demais para me relacionar com alguém. Por ser comunicativa, tagarela, falante etc., tenho carência de atenção; por ser curiosa acerca da filosofia e literatura fantástica, eu gosto que compartilhem das minhas imaginações insanas; e que me respeitem quando eu optar pela seriedade. Por isso, minha grosseria parece soar na manifestação do silêncio; basta eu me calar e o mundo ao meu redor se torna um deserto. Encontro-me no lugar adequado se carrego comigo a maneira árida de agir.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Neve

As férias passaram rápido, é como se o inverno consumisse com meus dias e noites. Esse clima não me favorece, não gosto da temperatura baixa, meu ânimo cai, meus olhos se desfalecem e eu perco as horas ao dormir. Fico divagando enquanto o sol se põe. Admiro o céu multicolor, meio alaranjado, meio róseo, e simplesmente fascinante. Enrolada nas cobertas, percebo que a minha esperança é como aquela estrela luminosa, assim que nasce, se eleva, perpassa meia volta e repousa no final.
Enquanto ela descansa, minha pupila é encoberta pelas pálpebras emitindo as imagens de um passado ora imaginado, ora real e incompleto. As faces nítidas me atormentam, é a recordação acenando em minha direção. Não sei se é sonho ou pesadelo, mas eu vejo uma mesma pessoa por semanas, me perturbo por não ser hábil o bastante para esquecê-la em sua totalidade. Acordo absorta, perdida num cenário embaçado, tentando entender o porquê de restaurar tais representações. Relaxo um pouco e o máximo que consigo é fechar os olhos novamente. Outra explosão de imagens.
Livre dos vultos, onde quer que eu passe, eu avisto um sinal do que há pouco vi e rememoro as emoções contrastantes: ódio, amor, raiva, carinho, vingança. Até um terço do dia eu não consigo me dar conta do que realmente eu sonhei ou de quem esteve na memória. Remexo a cabeça num gesto inútil de esquecimento, mas a noite é malvada e silencia para me torturar.
Desprezo sentimentos advindos de um passado que mal reconheço. Eu enterrei os fantasmas, eles não podem mais voltar, eu os petrifiquei. Não vejo razão nesse retorno, ainda que abstrato e fruto da imaginação. Minha frieza se desencadeou a partir dos meus conflitos com estas figuras. Talvez eu não tenha enterrado direito. Talvez eu mesma esteja querendo que elas voltem. É tudo tão confuso. Certamente, as férias que tive foram curtas em sua duração, mas longas na intensidade. Se for necessário ao passado, que ele volte a mim; preciso da primavera. Não quero mais congelar.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Nomes

Nomes esquecidos.
Nomes marcantes.
Nomes sequer conhecidos.
Nomes que nem nomes são.
Nomes apelidos, sobrenomes.
Nomes difíceis na articulação.
Nomes estrangeiros.
Nomes misturados.
Nomes falsos e verdadeiros.
Nomes do dicionário.
Nomes próprios e comuns
Que remetem a outros vários.
Nomes apressados e lentos.
Nomes bem ditos,
Que não saem do pensamento.